terça-feira, 13 de dezembro de 2016

À SOMBRA

À sombra da árvore fiquei observando,
O balançar da folha e o pássaro voando.
À sombra da árvore respirei fundo,
Tentando entender este diverso mundo.

À sombra da árvore pus-me a meditar,
Esta tarefa rara... um difícil exercício.
À sombra da árvore dormi sem sacrifício,
Esquecendo o que insiste em me interditar.

À sombra da árvore alonguei o momento,
Tornando mais lento o meu biorritmo.
À sombra da árvore tornei-me íntimo...
De mim mesmo questionando o tempo.

À sombra da árvore enfrentei o fantasma,
Embora a guerra seja longa e penosa...
À sombra da árvore fiquei imune à asma,
Situação fictícia, mas maravilhosa.

HOMEM INVISÍVEL

Demorou a entender o talento precioso,
Que magos buscam e sonham em vão,
Percebeu que aparecer seria pernicioso,
E agora fica calmo com o sim e o não.

Já que amigos e filhos não lhe procuram,
Exceto quando necessitam de favores,
Provou a impermanência dos sabores,
Lidando com feridas que jamais curam.

Agora passa pela vida desapercebido,
Pelo ritmo insistente do dia a dia,
E reconhece agora o presente recebido,
Análise correta, embora tardia...

De fato, acaba sendo um privilégio...
O que alguns julgariam sortilégio,
Desaparecer sem deixar o menor vestígio,
Sem causar sofrimento, tampouco litígio.

MISSÃO CO(U)MPRIDA

O cansaço insiste e os anos vão se sucedendo,
A insensatez e o fracasso vão me aborrecendo,
E o riso outrora fácil, rasgado e contente,
Ficou irônico, debochado, intransigente...

O planejamento e futuro já não importam,
As pessoas não ligam, nem se comportam...
As situações se repetem teimosamente...
Forjando minha rudeza cuidadosamente.

Os objetivos tão sonhados e perseguidos,
Não passaram de delírios de um infante,
Que sequer teve seus pecados remidos...

Chega um certo momento de constatação...
A missão que era comprida e empolgante,
Parece agora cumprida a cada estação.

REFERÊNCIA

Tempos de outrora, foram embora...
Aqueles em que você era mirado,
E por seus filhos, até admirado,
Educando e brincando toda hora.

O riso sempre era abundante,
As lágrimas raras e necessárias...
Temperavam as cenas diárias,
Semeando futuro empolgante.

Devo ter falhado como educador,
Devo ter sido o pior dos pais,
Estive ausente em inúmeros ais?
Acredito ser, pusilânime pecador.

E hoje colho o que sequer plantei,
A inequívoca e dolorosa ausência,
A ficção do convívio que me encantei...
Para os filhos, nem sou referência.

ESTÁ CHEGANDO A HORA

Está chegando a hora de ir embora,
Está se aproximando o dia formal,
Mesmo com o calendário jogado fora...
Os fatos ocorrerão de forma normal.

A pouca utilidade que tenho,
Esvair-se-á, como água em torrente...
E por maior que seja o empenho,
Será inevitável um rumo diferente.

Para os que amo, estarei ausente
Mas no fundo, eles nem ligarão...
A ausência já se fazia presente,
E os instantes e fatos se sucederão.

Recomeçar em novo ambiente...
Talvez com gente impaciente,
Minha tênue personalidade,
Conviverá em franca dualidade...

AO MEU QUERIDO PAI

Hoje contemplo seu semblante,
Outrora altivo e confiante,
Cansado e um tanto afastado,
Com o físico bastante desgastado.

Saiba você, nos momentos de consciência,
Que seus exemplos continuam a render,
Ao seu filho, que continua a aprender,
Com seus erros e acertos, a oculta ciência...

De viver, sempre oferecendo ajuda,
De calar, se argumentar for inútil,
Que conhecer sem praticar é fútil,
Que a boa sentença pode ser muda.

SER PAI

Mesmo que nada de bom eu fizesse,
Simplesmente ser pai me salvaria,
Daquela vida sem graça de calmaria,
Levantando-me, embora eu não quisesse...

Ser pai salvou-me do marasmo,
Apesar dos momentos de sarcasmo,
E do egoísmo da onipresença,
Trouxe-me a realidade de outra sentença...

Já perdi a presunção do conselho,
Quando aprendi a me olhar no espelho,
E admirar a beleza do descobrimento,
Com momentos alegres e de sofrimento.

Ser pai é tentar dar alguns exemplos,
Sem o formalismo dos sagrados templos,
É mostrar todos e quaisquer elementos,
É guardar para sempre os grandes momentos.

Ser pai é ter filhos para contemplar,
Sem a pretensão de ter sido exemplar,
Amando incondicionalmente ao seu jeito,
É ser único e completo, sem ser perfeito.

EU FUI PAI

A mensagem foi dada e solidificou...
A serventia que eu demonstrei outrora,
Agora pode ser lembrada naquela aurora,
Como um degrau que para trás ficou.

A presença não chega a ser rejeitada,
Mas simplesmente não é necessária,
Dispensável para observar a empreitada,
Que se mostra atraente, com alma corsária.

Por isso é melhor eu me recolher calado,
E não me aproximar como intruso,
Pois conservo a rejeição ao obtuso,
E percebo quando não me querem ao lado.

Recordações nostálgicas podem ser banais,
Mas confesso que ainda me prendo a elas,
Tentando ignorar as presentes mazelas,
Parasitas do pai que fui e não sou mais.

DIA

Mais um dia fatalmente chegou ao fim,
Convivi com o não, o talvez e o sim...
Vários sonhos foram enterrados,
Alguns fantasmas foram soterrados.

Mais um dia se passou e sobrevivi,
Discordei de muita coisa que ouvi.
Menos um dia falta para alcançar,
Sem conquista para contrabalançar...

Mais um dia de rotina massacrante,
Menos um dia para ser errante,
A caminhada é circunspecta e solitária,
Mente e coração em disputa totalitária.

Não recuperei, após mais um dia,
O sorriso sincero e a alma fugaz,
Menos um dia e ainda sou incapaz,
De exercitar aquela saudável rebeldia.

ONTEM

Outrora fui um tolo romântico,
E tomei decisões no labirinto,
Enganando o meu melhor instinto,
Mergulhei no emaranhado quântico.

Ontem vi e muita coisa senti,
E meu cérebro selecionou o essencial.
Optei pela verdade e não menti,
Trazendo inconformismo existencial.

Ontem eu não mudo mais,
Penso em fugir, mas fico no cais...
Mas hoje sofro influência,
Tentando manter a decência.

O ontem permanece com intromissão,
Porque o hoje sempre dura pouco,
Porque adivinhar o amanhã é para louco,
E continua crescendo, sem permissão...